terça-feira, 10 de abril de 2012

"NÃO SOU EU QUEM PINTA UM ÍCONE" : A obediência da iconografia cristã.

Há dez anos, Madre Maria (Egereva) serve a Igreja trabalhando no ateliê de iconografia do Convento de Santa Elisabeth, em Minsk. Ela também foi docente na escola de pintura iconográfica  do Convento desde 2009. 




Pergunta : O que você pode nos contar a respeito do  seu caminho para Deus e para avocação monástica? Você foi criada em uma família piedosa? 
Madre Maria : Fui criada em uma família normal dos tempos soviéticos, e estudei em uma escola soviética comum. No entanto, minha alma estava procurando o significado da vida, desde quando eu ainda era uma criança. 
Minha mãe sofria de várias doenças, e em minha preocupação com ela imaginava : por que isso acontece?  Quando cresci, nosso país começou a mudar, a propaganda ateísta foi interrompida, e apareceram muitas coisas novas, que nem sempre estavam relacionadas com a Igreja ( a astrologia ou o budismo, por exemplo). Tentei todos esses caminhos antes de finalmente encontrar a  Ortodoxia. 
Pergunta : Por que você encontrou a Ortodoxia? 
Madre Maria : Meu interesse na Ortodoxia  começou como o relacionado pelas outras alternativas. Lembro  que em um dado  momento, minha vida havia se tornado insuportável. 
E foi então que minha alma entendeu que não havia nada que pudesse me ajudar, exceto a confissão. Eu tinha algum conhecimento vago a respeito da  confissão, mas eu estava receosa de me aproximar de um  padre e  lhe contar os meus pecados. 
Quando a vida se torna realmente difícil,  você percebe que nem a natureza nem a astrologia podem  te ajudar, te dar força. Ai você percebe que só e exclusivamente a fé em Deus pode te auxiliar.   

Pergunta : Como você ficou sabendo da Irmandade? 
Madre Maria : Certa vez fui ao Serviço Divino da Catedral de São Pedro e São Paulo, quando conheci o Padre André (hoje Arcipreste André Lemeshonok, pai espiritual do convento  da irmandade em honra de Santa Isabel). Ele estava cantando uma Akatiste em honra do ícone da Mãe de Deus denominado  “Cálice inesgotável ". Também passei a frequentar a Irmandade quando da realização do Akatiste a Santa Mártir Elizabeth, recitado aos Domingos. Adorava ver as irmãs em suas vestes brancas. E foi assim que cheguei até aqui.  
Em um primeiro  momento, minha obediência era ajudar no recolhimento de donativos. 
Este foi o melhor, o mais feliz período de minha vida. Apenas mais tarde cheguei ao estúdio de pintura de ícones do Convento ... 

Pergunta : Como você se tornou uma iconógrafa ? 
Madre Maria : Todos no Convento viviam a me dizer que eu deveria me dedicar a iconografia, pois eu era uma artista diplomada. Mas de início esta não era a minha intenção. 
Na verdade, quando comecei a ir a Igreja, me desfiz de tudo aquilo que era relacionado a minha vida antes da Igreja, e isso incluía os álbuns de arte. Joguei todo o material no lixo.( Hoje eu lamento ter tomado tal atitude, pois muitos dos livros sobre técnicas de pintura hoje me seriam úteis.)
Desde o início, escrever um ícone me pareceu ser algo extremamente  difícil de fazer, e eu estava  tão satisfeita com meu relacionamento com Deus,  que eu desejava continuar trabalhando na limpeza e em obrigações desse tipo,  mas o Senhor  dispôs as coisas de uma maneira diferente. 

Pergunta : Por que você decidiu ser uma monja? 
Madre Maria : Como disse antes, frequentava a Catedral de São Pedro e São Paulo, e lá conheci o Padre André. Assistia as suas palestras, nas quais ele trazia leituras do Ancião Sofronio e sobre a história do Ancião Efraim. Essas leituras me emocionavam profundamente.
Em um primeiro momento, no entanto, eu identificava o monaquismo como algo alto demais para mim.  Contudo, houve um dado momento em que definitivamente decidi me tornar uma monja, e desde esse momento, nunca pensei em questionar essa decisão.

Pergunta : O que é o mais importante para um pintor de ícones? Você pode partilhar da sua experiência? É a pintura ícones de alguma forma ligada à vida interior? 
Madre Maria : Em nossa vida, há diferentes períodos. Não é então em todos os momentos em que sentimos a grande graça de Deus. Às vezes o coração o está pesado, a pessoa sofre de dores de consciência. 
Um iconógrafo precisa e ter um ambiente calmo e tranquilo a sua disposição  para que ele de início a pintura de um ícone.  No entanto, a minha experiência  pessoal  diz que mesmo quando minha alma está perturbada, quando começo a pintar um ícone, o Senhor age e cura a minha alma através desse ícone. 
Daí que a principal coisa que eu posso compartilhar é que não sou eu quem pinta um ícone, o ícone é pintado de alguma forma misteriosa, pois quando se pinta um ícone, nós chamamos por Deus, e nisso iniciamos um relacionamento com Ele. 
Definitivamente, em primeiro lugar um iconógrafo deve amar o que faz. Ele deve dedicar todos os seus esforços a pintura de ícones, de modo que um iconógrafo não deve fazer outra coisa em paralelo. Ele deve dedicar sua vida a esta obediência.

Pergunta : Como você cria as imagens? 
Madre Maria : Quando fico sabendo sobre o que vou pintar, dou inicio a minha preparação , através de leituras sobre o santo que será pintado. Eu não faço nada imediatamente, mas sim vou elaborando a pintura aos poucos, de modo a compreender de forma gradual como o ícone deve ser escrito. 
Antes da madeira,  desenho muitos esboços e os apresento ao nosso Pai espiritual ( se são ícones para a nossa igreja) ou para a pessoa que me encomendou o ícone.  

Pergunta : O que você sente quando o trabalho esta realizado? 
Madre Maria : Eu me sinto feliz. Ultimamente tendo  pintando  
ícones grandes , e cada um deles leva cerca de um meses a pintar. Às vezes, os ícones estão relacionadas  um com o outro, e acabo levando  vários meses para concluir tudo. Como exemplo disso, levei os últimos quatro meses pintando ícones dos Santos Mártires Imperiais.  

Pergunta : Você tem um estilo preferido ? 
Madre Maria : Tenho chegado à conclusão, especialmente a partir do momento em que  comecei a lecionar na  escola de pintura de ícones, que nada sei e que tenho que aprender tudo desde o início. Ultimamente tenho estabelecido a seguinte rotina de trabalho : Pego um antigo ícone  e tento copiar  suas linhas e cores. 
Há um ícone muito bonito de São Sérgio de Radonezh, que está preservado no Museu de André Rublev em Moscou. Eu tenho tentado  copiar esse ícone. Viajamos para Moscou com a nossa escola e tentamos copiar os ícones que vimos no museu. 

Pergunta :  Qual ícone  você considera como sendo modelar, um exemplo para  você? 
Madre Maria : Naturalmente, os ícones do Santo André Rublev, e nem mesmo estou fazendo menção ao seu estilo, mas sim digo a respeito de sua profundidade e serenidade. 
Uma das matérias de nossa escola iconográfica trata justamente de debater sobre a luz dos ícones. A luz sempre foi um elemento  muito importante para todos os pintores de ícone entre os Séculos  
XIV e XV. Este foi o momento em que São Gregório Palamas escreveu sobre a Luz Divina do Tabor. 
Estes escritos encontraram seu reflexo na iconografia de  Teófano o Grego, de André Rublev, e de Dionísio, mas cada um deles tinha uma forma diferente de mostrar essa luz. 
Na iconografia de  Teófano o Grego, temos esta luz viva como em chamas. 
Já a luz nos ícones de André Rublev é uma luz compassiva e interior.
 Nos ícones por Dionísio  a luz é realmente  incomparável, as  cores são majestosas e mesmo luminosas.

Pergunta : Existe um pintor de ícones atuais que seja um exemplo para você? 
Madre Maria : Falando do ponto de vista técnico, o diácono Sérgio é um exemplo, eu acho que posso aprender muito com ele.  Existem muitas pessoas talentosas em nossa oficina, e eu procuro aprender alguma coisa com todos. Nós organizamos regularmente exposições dos ícones que pintamos, e alguns desses ícones são simplesmente maravilhosos. 
Conheço uma  pessoa maravilhosa , o Padre Igor Latushko, que é um sacerdote e um pintor de ícones. Certamente sempre fico muito feliz quando o encontro. 
Com o  Diácono Sérgio busco  aprender  sobretudo sobre a arte da pintura do ícone. Já com o Padre Igor , não é o ensino das técnicas em si, mas fundamentalmente seus ensinamentos são voltados para a relação do ícone com o mundo. As pessoas são diferentes, há aquelas personalidades mais fervorosas , impetuosas, já o Padre Igor é daquele tipo calmo, pacífico. Todos no estúdio ficamos muito felizes quando o Padre Igor nos visita.

Pergunta : Alguns iconógrafos  dizem que as vezes as faces dos santos  são difíceis de pintar. Você acha que tal dificuldade tem relação com a vida espiritual do iconógrafo ?
Madre Maria : É difícil dizer. E é complicado determinar coisas assim a partir do um ponto de vista estritamente técnico. 
Veja uma situação típica: quando você pinta ícones por um longo tempo e sem parar, as camadas não secam adequadamente, e mesmo por isso há  muitos ícones que ficam como que tomados por uma “neblina”, como os iconógrafos denominam. 
Por outro lado, cada pessoa vivencia diferentes períodos em sua vida. Para uma determinada pessoa, a pintura se torna  bem fácil desde o início, enquanto outra pessoa tudo é sempre  mais difícil. 
Às vezes um iconógrafo pode tentar escrever ícones por anos a fio, e não ver qualquer sinal de sucesso, e nisso a pessoa fica chateada, claro. No entanto, ela não deve perder a esperança, e ai está uma questão notoriamente espiritual vinculada a esta obediência. 
Existem outras maneiras de verificar como o estado espiritual pessoal do iconógrafo tem relação com a pintura dos seus ícones. 
Quando, por exemplo, um ícone fica muito bonito e isso faz com que o iconógrafo fique orgulhoso de si mesmo, o resultado do ícone (em virtude do seu orgulho) não terá sido bom, ainda que tecnicamente tenhamos um notório sucesso. 
O ícone então só será realmente um bom fruto, na medida em que o iconógrafo se humilhe através dele. 

Pergunta : É necessário que o iconógrafo reze ao santo que será escrito , ou não ? 
Madre Maria : O ponto primordial é que o iconógrafo deve perseverar na oração do coração. Quando então tudo se tornar tranquilo  em torno dele e ninguém e nada mais o distrai, ele pode mergulha profundamente e ai sim, pintar. 

Pergunta : Qual é o seu santo preferido? E por qual razão?
Madre Maria : São Sérgio de Radonezh. Existem muitos eventos na minha vida que são associados com  São Sérgio. Por exemplo, a minha vinda para a Igreja, e a pintura de ícones foram inspiradas nele. Ele é humilde. Considero também São João o Precursor  e São Tikhon como meus santos favoritos. 

Pergunta :  De qual modo a sua vinda para a Igreja está relacionada  com São Sérgio? 
Madre Maria : A vida de São Sérgio foi o primeiro livro espiritual que li. A minha primeira peregrinação a um lugar sagrado foi realizada na Lavra da Santíssima Trindade de São Sergio.  Seus pais não queriam que ele fosse para um  mosteiro, assim como também os meus pais não queriam que eu me tornasse uma monja.  Eu ingressei no Convento em um outono, no dia de São Sergio... 
Nós aqui sonhávamos em ter uma partícula de suas relíquias em nosso Convento. Um certo dia  fomos visitar a Lavra da Santíssima Trindade de São Sérgio  e eles nos deram uma partícula de suas relíquias. Este foi um ato da   misericórdia de Deus! 

Pergunta : Algumas pessoas no estúdio de pintura de ícones são recém-convertidos a igreja, não são? 
Madre Maria : Todos os nossos iconógrafos  são membros ativos da Igreja. Uma menina foi batizada durante seu estudo na escola de iconografia. Eu não acho que a arte da pintura de ícones desperte interesse em um incrédulo. Mas mesmo uma pessoas que não frequentam a igreja, o ícone poderá a conduzir a Deus.



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

CURSO DE INICIAÇÃO À ICONOGRAFIA 2012

PAX!
Estamos programando nosso próximo curso de iniciação à iconografia russo-bizantina para o primeiro semestre de 2012 - 30/04 à 06/05.
Neste curso, sob orientação dos iconógrafos Rosalva Trevisan Rigo e Dom Paulo Domiciano, OSB, a Escola de Iconografia São Lucas do Mosteiro da Transfiguração oferecerá uma introdução à teologia e espiritualidade do ícone, seu significado e lugar no mistério litúrgico. Os candidatos também serão iniciados à técnica da escrita de um ícone da face de Cristo, segundo a escola russo-bizantina de S. André Rublev (séc XV).
O material necessário para a realização deste primeiro ícone será fornecido pela escola e os candidatos poderão levá-lo consigo ao final do trabalho.

Para informações e inscrições: (55) 3512-6193
domicianus@hotmail.com
rosalvaartesacra@gmail.com

sábado, 15 de outubro de 2011

FILME OSTROV



Recentemente assisti um dos mais belos filmes de minha vida. Trata-se de OSTR0V (2006) – A Ilha.
É um filme russo que conta a história de um marinheiro que sobrevive a um naufrágio e que é acolhido em um mosteiro ortodoxo. Ele mesmo se faz monge e vive num constante arrependimento pelos pecados cometidos durante a guerra e numa profunda oração. Seu sofrimento espiritual e humano lhe permite compreender o sofrimento dos peregrinos que se aproximam para receber orações, aconselhamento e cura de suas doenças.
O Patriarca Alexis II disse que este filme é um exemplo vivo de uma tentativa de abordagem cristã da cultura.
Infelizmente o filme não chegou ao Brasil. Mas é possível ver alguma coisa pela internet.
No site do filme: www.ostrov-film.ru, há uma frase que aguça nossa curiosidade:
“Dele esperam milagre e salvação; mas ele próprio, apenas um milagre poderá salvar.”





sábado, 6 de agosto de 2011

UM IMPREVISTO ÍCONE DE TODA A REALIDADE

O segredo revelado aos três apóstolos Pedro, Tiago e João no monte Tabor é o segredo que hoje o iconógrafo deve comunicar com a arte sacra. Na luz da fé em Jesus Cristo, a realidade sofre uma metamorfose: o fiel percebe aquela vocação que desde já começa a penetrar na criação. 

Em geral se conhece a arte sacra do ícone apenas pela leitura de de qualquer livro. Entre as frases sobre o assunto existe aquela que afirma que o primeiro ícone que o iconógrafo realiza é aquele da Transfiguração. Se poderia dizer, por analogia com o aprendiz de música que, para receber o diploma – após os anos de conservatório – apresenta para o exame um trecho musical correspondente, quanto à dificuldade, à execução de um ícone da Transfiguração. 
E no entanto, a Transfiguração é, verdadeiramente, o ícone por excelência: o selo que confirma esta linguagem sagrada. 
O segredo contido neste episódio evangélico aparentemente anômalo é, na realidade, a regra da arte sacra, o seu cânone de referência: inicialmente secreto, depois revelado a todos. 


O monte elevado

O modo de pintar um ícone é análogo à construção de uma cidadela sobre um monte. De fato, é em cima do monte que o céu se inclina sobre a terra que se eleva. A arte sagrada é esta dinâmica de abaixamento e elevação. Não só Moisés e Elias (Horeb–Sinai) são personagens da montanha sagrada, mas cada um de nós e todo ícone deve se tornar monte como é dito no Salmo 86, 2-3: “O Senhor fundou a sua cidade sobre os montes que santificou com a sua presença” e “Minha mãe é Sião, todos nasceram nela”. A pintura sagrada representa os seus santos e os seus personagens como que alongados em direção ao alto, ou eles mesmos, como sólidas montanhas. Pode-se dizer que ser terra que se eleva torna-se um cânone pictórico.


Vós que éreis treva... agora sois luz (Ef 2,13)
O esforço do pintor corresponde à dinâmica da iniciação cristã – expressa na Carta aos Efésios – de trazer, da matéria opaca, a luz. Em Fl 3,21 São Paulo diz: “Ele transformará o nosso pobre corpo, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso”. De fato, na pintura do ícone, partindo da humilde poeira colorida dos pigmentos, se vai em direção à luz com sucessivos clareamentos, uma espécie de iniciação cristã na arte sacra. 









Uma nuvem os cobriu e eles ficaram cheios de temor
O ícone da Transfiguração representa três personagens lançados em direção ao alto e três personagens que se prostram descompostos ao solo com um contraste surpreendente, sobretudo nos ícones russos, onde este fato é acentuado de modo aparentemente exagerado. O Homem-Deus que toca o céu e o homem-terrestre agachado ao solo constituem os dois extremos de uma dinâmica de percurso de ascese. O ícone parte do homem terrestre para conformá-lo a Cristo, Homem-Deus: do descomposto ponto mais baixo à elevada e solene chama lançada em direção ao céu. 

Vestes brancas como a luz 
Em comparação com o espírito, o corpo é como uma roupa que se usa. Deus é luz incriada e o corpo assumido pelo Verbo, segundo Adão, provém da criação (da santíssima Virgem) para ser enxertado nessa Luz divina: no corpo de Cristo e nas suas vestes brancas como a luz é ocultado o grande mistério da Imaculada, uma terra virgem que deu um corpo ao Verbo de Deus, e há também o mistério da divinização do homem: a sua participação na luz incriada. 

“É bom ficarmos aqui”
 A beatitude do Paraíso é o caráter que a virtude da esperança nos faz antegozar. A arte do ícone é toda baseada nesse aspecto positivo. É uma arte que tem um olhar positivo e consolador sobre a realidade como um viático sacramental na batalha da vida. Cada ícone conserva esse aspecto alegre do Tabor nas suas cores luminosas, no ouro, na nitidez das formas, na transparência das camadas de cor e, sobretudo, ao evidenciar os fatos como se estivessem ocorrido recentemente, como uma aparição, como uma teofania. 

A nuvem luminosa 
O iconógrafo conhece bem este símbolo, o qual representa habitualmente como uma sucessão de círculos concêntricos, alguns luminosos, outros com um azul profundo, enriquecidos de raios e estrelas de ouro. A boa pintura consegue conferir também ao tom escuro uma transparência como um céu nas noites do oriente ou como a água profunda. É aquele símbolo que circunda o Cristo que desce aos infernos, que vem pegar a alma de Maria, na Dormição, ou mesmo quando está sentado no seu trono de glória. A nuvem é sinal revelador de uma presença, aquela do Espírito Santo, na sua dúplice função de cobrir e iluminar, refrescar e aquecer, acolher e irradiar dons. A sua cor é um azul escuro ou o branco, o ouro ou o vermelho incandescente: as cores da plenitude que revelam a beatitude de um lugar de chegada, da expectativa de uma festa nupcial ou talvez a palavra nuvem simplesmente esconde este segredo. 

Giovanni Mezzalira 
Tradução: Ir. Cristiane Pieterzack ASF

quinta-feira, 30 de junho de 2011

CURSO DE INICIAÇÃO À ICONOGRAFIA JUNHO 2011

No dia 20 de junho iniciamos três novos alunos na Escola São Lucas: Filipe Mirapalheta Oliveira, seminarista da Diocese de Novo Hamburgo-RS, Fátima Epifânio,  do Rio de Janeiro-RJ, e Eliete de Oliveira Valentini, de Taquara-RS. Nossas alunas Irª Cristiane Pieterzack, ASF, Berenice Dallagnol e Iracema O. da Natividade, que já frequentaram o curso de iniciação em 2010, também trabalharam conosco estes dias.
Os primeiros três dias foram de aulas de teologia e espiritualidade do ícone na tradição cristã. Depois os alunos iniciantes foram para o ateliê onde receberam as primeiras instruções sobre a confecção dos santos ícones segundo as técnicas da escola russo-bizantina dos séculos de Ouro (XV-XVI).
Preparamos com eles as madeiras com a cola de coelho e o levkas; o polimento de preparação para receber o modelo; a preparação dos pigmentos com têmpera de gema de ovo e vinho e cada uma das etapas segundo a tradição do Santo André Rublev.
No final da tarde do dia 28, durante a Liturgia de Vésperas, os ícones foram abençoados sobre o altar da igreja do mosteiro.









“Cristo é o ícone do Deus invisível, o Primogênito de toda criação” Col 1, 15

terça-feira, 29 de março de 2011

Deus é feio ou é belo?

A arte é, se quisermos, a narração visual da experiência de encontro com um rosto, uma palavra, uma imagem verdadeiramente visível porque incarnada. São Paulo irá mais longe, completando cristológica e cristãmente a doutrina da “imagem-ícone” de Deus desenvolvida em Gênesis 1,27 («Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher»). De fato, ele afirma que os cristãos, como filhos adotivos de Deus, são predestinados a serem “uma imagem (eikôn) idêntica à do seu Filho, de tal modo que Ele é o primogênito de muitos irmãos” (Romanos 8, 29). O cristão é, por isso, imagem da imagem de Deus e a arte é o ícone da imagem da imagem, pois através dos vários rostos humanos ela recompõe o rosto de Cristo que é revelação do rosto divino. Como afirmava Macário, o Grande, na sua Iª Homilia, «A alma que foi plenamente iluminada pela beleza inexprimível da luminosa glória do rosto de Cristo, fica cheia do Espírito Santo (...) e torna-se toda ela olhos, toda luz, toda rosto» (Patrologia Graeca XXXIV, 451).
Façamos aceno a uma pergunta talvez ingénua mas, sem dúvida, fascinante: é possível dizer algo mais sobre o rosto de Deus, através da Encarnação [de Jesus], para que a arte adquira uma espécie de cânone figurativo? Há um silêncio nos Evangelhos que não dedicaram nem uma linha ao perfil físico de Jesus de Nazaré, nem sequer o Evangelho de Lucas, dito o “pintor” (de acordo com a tradição). Ora, a cultura cristã enveredou não por uma, mas por duas vias e antitéticas. Ambas têm, todavia, uma sua verdade.
Primeiramente, a partir do século III, os Padres da Igreja quebraram o silêncio visual e imaginaram o rosto de Cristo moldado pelo seu sofrimento redentor, o rosto da paixão e morte que o célebre passo de Isaías, do canto quarto do Servo Sofredor, ilumina: “Sem figura nem beleza. Vimo-lo sem aspecto atraente... diante do qual se tapa o rosto” (53,2-3). Orígenes resumiu isso de forma lapidar: Jesus era pequeno, feiote, semelhante a um zé-ninguém. Pode ser surpreendente, mas aqui chegados, devemos dizer que até a fealdade pode salvar o mundo, invertendo assim a célebre e citadíssima afirmação de Dostoievski. A lógica da Encarnação compreende também o sofrimento de Deus, o corpo martirizado, a posteriora Dei, como Lutero ousava definir o perfil de Cristo crucificado. O seu rosto reflete a face banhada de lágrimas dos irmãos e irmãs do “primogénito entre muitos irmãos”. Neste sentido, é uma “fealdade” nobre que fala de Deus e que impede todo o kitsch devocional, todo a esteticismo triunfalista, todo o maneirismo.
Contudo, é preciso reconhecer que o ponto de chegada da vida de Cristo não é a Sexta-feira Santa, mas “o Domingo da vida”, para usar livremente uma locução hegeliana, ou seja, o alvor da Páscoa que é por excelência o definitivo “dia do Senhor” (Apocalipse 1,10). Não é por acaso que a Primeira Carta de João define Deus como Luz (1,5). A partir daqui inaugurou-se uma outra estrada figurativa que os Padres da Igreja exaltaram a partir do século IV, e fizeram prevalecer na tradição artística posterior. Usando os modelos da estética clássica greco-romana, absorvendo até frequentemente a tipologia figurativa das divindades pagãs ou dos filósofos da antiguidade, propôs-se um Deus belo e radioso, um Cristo apolíneo, irradiando luz como o sol, segundo o passo do Salmo 45,3, submetido a uma releitura alegórico-messiânica: “Tu és o mais belo dos filhos dos homens”. Apesar de Santo Agostinho repetir que “ignoramos totalmente qual seja o rosto” real de Cristo, foi esta a imagem divina que se impôs, reforçada em milhares de representações admiráveis em séculos da melhor arte cristã, mas também na superabundância monótona e repetitiva dos copistas.
Na verdade, os dois itinerários iconográficos oferecem um contributo para representar o Deus bíblico que é, sim, transcendência e luz, mas também é Emanuel, pronto a caminhar pelos percursos da história e a tocar os corações com o seu Filho feito homem. À luz desta perspectiva torna-se emblemática a síntese operada pelos vários Pantokrator colocados nas absides das grandes basílicas antigas: o Cristo triunfante e glorioso aparece em todo o esplendor da sua beleza, mas traz bem visíveis os estigmas ensanguentados da sua paixão. Deus invisível e visível, transcendente e próximo, glorioso e sofredor. Eis a arte, a quem cumpre não só apresentar o fenomenológico, mas o mistério subentendido (o Inconnu, como dizia o poeta francês Laforgue). Quando a arte se faz religiosa, deve procurar sempre unir de maneira harmoniosa o Infinito e a carne, o Eterno e a história, o Filho de Deus que é Jesus de Nazaré.
D. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
Trad.: SNPC
© SNPC (trad.) | 02.07.10

terça-feira, 15 de março de 2011

Trabalho em um ateliê de iconografia

Encontrei essa semana um blog italiano excelente, com muitos links de ateliês de iconografia e iconógrafos de vários países, inclusive da Rússia. Dentre eles, um que me chamou muito a atenção é o álbum de fotos de Anastasija Sopagiene, uma iconógrafa católica romana da Lituânia, que trabalha juntamente com mias dois iconógrafos. Eles realizaram uma Via Sacra e mostram passo à passo todo o processo de confecção dos ícones.





Vale à pena conferir: 
Álbum de Anastasija Sopagiene
O endereço do blog: http://iconecristiane.it/
Espero que gostem!!!